terça-feira, 8 de outubro de 2013

A Crescente Crise por trás da História Evangélica de Sucesso no Brasil

Postado por Audilene Penha às 19:46
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Por Augustus Nicodemus

Augustus Nicodemus
Quando Paulo Romeiro escreveu Evangélicos em Crise em meados de 1990, um livro que tem permanecido como um bestseller entre os evangélicos brasileiros, ele abordou apenas uma das muitas maneiras pelas quais o evangelicalismo entrou em colapso no Brasil: Sua inabilidade para frear a propagação da teologia da prosperidade. É cada vez mais claro que os evangélicos no Brasil estão hoje no meio de uma crise muito maior, começando com a dificuldade – para não mencionar a impossibilidade – em definir o que significa ser evangélico. De acordo com o último senso oficial, os evangélicos representam quase um quarto da população total do Brasil (22,5%). É um crescimento fenomenal, já que apenas 40 anos atrás eles eram somente 2,5%.

A despeito de seu constante crescimento oficial, aclamado para o mundo como uma história de sucesso das missões e evangelismo, os evangélicos no Brasil encaram hoje muitos desafios. Mencionarei alguns:

*Incerteza quanto à sua própria direção teológica futura.
*Multiplicidade de teologias divergentes.
*Falta de uma liderança com autoridade moral e espiritual.
*Derrocada doutrinária e moral de líderes outrora respeitáveis..
*Ascensão de líderes totalitários que chamam a si mesmos não apenas de pastores, mas também se auto-procalmam bispos e apóstolos.
*Conquista gradual das escolas de teologia pelo liberalismo teológico.
*Falta de padrões morais que possam funcionar como pontos de partida para a disciplina eclesiástica.
*Depreciação da doutrina e exaltação da experiência isolada.

Como um resultado, mais brasileiros estão procurando por igrejas apenas para sentirem-se bem, para buscar soluções imediatas para seus problemas materiais sem nem mesmo refletir sobre questões profundas acerca da existência da eternidade, e movendo-se de uma comunidade para outra sem qualquer comprometimento ou engajamento na verdadeira vida e testemunho cristão. A propósito, o número de pessoas que professam ser evangélicas embora raramente freqüentem a igreja tem crescido de 6% para 16% de todos os evangélicos nos últimos anos.

Crise e Sucesso Simultâneos: Como o evangelicalismo alcançou este ponto de sucesso e concomitante crise no Brasil? A teologia e prática da Reforma nunca foram plenamente conhecidas ou adotadas em nosso país, mesmo entre as igrejas Reformadas. Como alguém disse, "Os evangélicos no Brasil são amalgamados por uma argamassa meio católica, meio espiritualista, e pouco ou nada reformada."

Além de não terem conhecido as doutrinas da Reforma em sua plenitude e poder, outros fatores parecem ter contribuído para a situação atual:
Os evangélicos têm se engajado em diálogos com católicos, liberais, neo-pentecostais e outras linhas sem, primeiro, ter identificado claramente as suposições básicas, não negociáveis. Penso que podemos conversar e aprender daqueles que não são Reformados ou conservadores. Contudo, o diálogo deve ser buscado dentro de limites e suposições bem definidos. Hoje, os evangélicos acham difícil delinear os limites do verdadeiro Cristianismo e como manter as portas fechadas para a heresia.

Os evangélicos têm adotado o princípio de não exclusividade. Isto começou com uma abertura para a pluralidade doutrinária, a multiplicidade de eclesiologias e o relativismo moral. Sem qualquer instrumento efetivo para pelo menos identificar o que discorda dos pontos cruciais da fé cristã, a porta estava aberta para falsos mestres que se introduziram, quase desapercebidamente, nas igrejas históricas e especialmente nas igrejas neo-pentecostais.

A fim de ampliar a base de comunhão com outras linhas dentro da cristandade, os evangélicos enfraqueceram sua aderência aos pontos cruciais do cristianismo histórico. Com esta redução progressiva dos princípios doutrinários básicos, a definição de "evangelho" tem se tornado cada vez mais ampla e perde seu significado original.

As denominações históricas gradualmente abandonaram os grandes credos e confissões do passado que moldaram a fé histórica da Igreja. Ao desprezar séculos de tradição e interpretação teológica, os evangélicos encontraram-se vulneráveis a qualquer nova interpretação, tais como o teísmo aberto, teologia da prosperidade, a nova perspectiva em Paulo e assim por diante. Mas, talvez a pior destas conseqüências tenha sido a perda e ausência da cosmovisão Reformada, a qual serviu como base para um olhar abrangente da cultura, ciência e sociedade a partir da soberania de Deus sobre todas as áreas da vida. Sem uma cosmovisão Reformada abrangente, o evangelicalismo tem se limitado a ações isoladas e fragmentadas na arena social e política, freqüentemente sem qualquer conexão com a cosmovisão cristã, tornando-se vulnerável às "coisas do mundo" na política e moral.

Finalmente, os evangélicos têm embarcado ávidamente em busca de respeitabilidade acadêmica, não apenas da parte de outros cristãos, mas especialmente da parte da academia secular. Como resultado, o evangelicalismo acabou submetendo muitas das suas instituições teológicas aos padrões educacionais do estado, o qual está comprometido com cosmovisões que são metodologicamente, pedagogicamente e filosoficamente humanistas. Isto abriu as portas para o velho liberalismo teológico, o qual, embora exteriormente moribundo, ainda está vivo e esperneando no Brasil.

Sinais de Esperança:
Não há uma saída fácil desta crise. Contudo, há alguns sinais de mudança encorajadores que eu não posso deixar de mencionar. Um deles é o surpreendente crescimento da fé Reformada entre os pentecostais. Há inumeráveis exemplos de pastores pentecostais se voltando para a compreensão Reformada das Escrituras. As vezes até mesmo igrejas pentecostais inteiras têm passado por esta mudança.

Cito aqui um e-mail que recebi algumas semanas atrás de um ex-pastor pentecostal:
Seu livro O Culto Espiritual [publicado primeiramente em 1998 e agora em sua quinta edição] fez toda a nossa igreja parar de falar em línguas e mudou nossa liturgia completamente. Tivemos até mesmo que mudar o letreiro em nosso prédio de "Assembléia de Deus" para "Igreja Reformada". Nos tornamos calvinistas dentro da tradição pentecostal, um movimento único que tem surgido em nossos dias. Devido a este movimento ousado de nossa parte, nossa pequena igreja começou a crescer numericamente como nunca antes. A primeira mudança básica que fizemos foi criar um seminário teológico, gratuito, todas as terças de 20:00 às 22:00 hs. Temos estudantes de muitas denominações: Assembléia de Deus, Evangelho Quadrangular e muitos de igrejas neo-pentecostais, do evangelho da prosperidade. Nosso culto no domingo a noite é muito simples: oração, louvor, pregação da Palavra, para não mencionar o fato de que às terças e sextas, por causa do nosso grande entusiasmo pela Palavra de Deus, estamos dividindo o culto em duas partes com duas mensagens, e às vezes alguns irmãos ficam até as cinco da manhã estudando e orando.

Vejo a fé cristã histórica, como manifestada na Reforma Protestante, como uma alternativa possível para a igreja evangélica no Brasil. Reconheço que nem todas as igrejas Reformadas no Brasil têm sido exemplos de vitalidade, relevância e liderança piedosa. Todavia, o potencial está lá. O centro para sustentar este crescimento maravilhoso não precisa ser buscado muito longe.


Augustus Nicodemus Gomes Lopes é um ministro presbiteriano, teólogo e professor. Chanceler da Universidade Mackenzie, conferencista internacional e autor de best-sellers. Augustus é Bacharel em teologia pelo Seminário Presbiteriano do Norte em Recife, Brasil, ThM em Novo Testamento pela Universidade Reformada de Potchefstroom, África do Sul, e PhD em interpretação bíblica pelo Westminster Theological Seminary em Philadelphia. Também atua como pastor auxiliar da Igreja Presbiteriana de Santo Amaro em São Paulo

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